domingo, 22 de janeiro de 2012

ÁRVORES DA MINHA VIDA


Naquele tempo em que eu comia açaí e não pensava nas calorias e que subir na goiabeira de casa era coisa natural do meu dia, nas proximidades de 1989, eu era feliz e não sabia.

Eu nem sonhava em ser funcionária pública e nem precisava ter um curriculo lattes, mas eu me equilibrava perfeitamente no muro que dividia a Marinha da Aeronáutica, para o desespero da minha mãe; e de lá eu tinha a impressão de dominar o horizonte das duas forças armadas.

No jambeiro que tínhamos ao lado de casa habitava uma família de morcegos, que durante o dia se penduravam de cabeça para baixo e de noite davam vôos rasantes a poucos centímetros das nossas cabeças.

A nossa mangueira não era muito grande como aquelas lá de perto do Clube dos Oficiais (o T1) e nem dava mangas tão saborosas, mas só de saber que tivemos uma mangueira já sinto muito orgulho, sobretudo porque hoje é tão difícil morar em qualquer lugar que tenha verde. Na verdade é tão difícil morar em uma casa, mesmo com o programa "minha casa minha vida". Ainda tínhamos um coqueiro, um pé de cacau e um de graviola, além de algumas árvores que não sei identificar e muitos arbustos no imenso terreno que cercava a nossa casa.

As histórias arbóreas da minha vida dão conta de explicar os motivos da minha melancolia de hoje só ter meia dúzia de vasos na janela.

Patrícia Orfila. 22/01/2012.


Velhas Árvores

Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores novas, mais amigas:
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas...

O homem, a fera, e o inseto, à sombra delas
Vivem, livres de fomes e fadigas;
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.

Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo! envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem:

Na glória da alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!

Olavo Bilac, in "Poesias"

CHUVA DE DOMINGO

Uma chuva como essa de domingo é um encontro com a minha terna infância na cidade das mangueiras. É uma vontade de esquecer a maioridade e se molhar até a alma. Palmas, que não é Belém, intimida os meus instintos mais moleques. Poderia ser na praça, na praia ou na calçada, mas a minha vontade era de ir pra chuva hoje. Fecho os olhos e as imagens pluviais despencam na retina, belos anos vividos sob mangueiras centenárias, de doces frutos e histórias molhadas e alegres. Eu gostava de ir pra chuva, mesmo que a minha mãe dissesse: - menina, tu vais ficar gripada desse jeito! E criança desconhece o perigo, desconhece limites, vocês sabem. Eu gostava de chuva na piscina, de chuva comendo manga bem de baixo do pé, atrás daquela igrejinha na Vila Militar da Aeronáutica. Era uma festa com as outras crianças da vila da Base Aérea, meninice livre dos temores de gente grande. Hoje eu presenciei a chuva de dentro do carro, que triste cena, que inveja do passado de mim mesma. Assistir a chuva sem fazer parte dela é ser adulto. E como diriam os grandes poetas: as crianças é que sabem de tudo.

Patrícia Orfila.
22/01/2012.





quinta-feira, 17 de novembro de 2011

NÃO A DIVISÃO DO PARÁ!


Por Amarílis Tupiassu

Indigna já só a ideia de reduzir o Pará a Belém e Zona do Salgado. Coisa de político-forasteiro mal-agradecido. O cara chega à casa alheia, que o acolhe com hospitalidade, e se revela um aproveitador. Entra, fuça a geladeira, abanca-se no melhor sofá, escancara as portas dos quartos, e a gente sabe: é um folgado. Chora, estremece por seu estado de nascença, enquanto explora e desdiz do Pará, de que só pensa em chupar tudo, até o Estado inteiro, se deixarmos.

O retalhador do estado (dos outros) chega e se espalha feito água. Abanca-se, invade a cozinha, destampa, tem o desplante de meter o dedo na panela, antes do dono da casa, lambuza as mãos, lambe os dedos. Como nós, os paraenses somos cordiais, ele confunde cordialidade com liberalidade. Vem, vai ficando, mergulha de unhas e garras afiadas em terras e política. Espalhado, o aproveitador, pronto, enriqueceu, encheu a pança. Fez-se fazendeiro, político de muito papo (balofo), o cara de pau. Alguns não dispensam trabalho escravo e agora dão de posar de redentores da miséria do Pará, como se só no Pará houvesse miséria.

E cadê? Ih, já nas altas cúpulas, armando discórdia, querendo porque querendo dividir o estado do Pará, disque porque é estado imenso e pobre, como se os miniestados brasileiros fossem paradisíacos reinos de felicidade, nenhum faminto sem teto, nenhum drogado, saúde e escola nos trinques, nada de tráfico e exploração de menores. Balela de retalhador! O retalhador (do estado alheio) tem no cérebro sinal de divisão. Só quer dividir, não seu estado, onde o espertalhão não conseguiu levantar a crista. No Pará, não se contenta em ser fazendeirão, explorador de miseráveis.

Quero um estado pra mim, Assembléia Legislativa, rumas de assessores, Tribunal de Contas com obsceno auxílio-moradia, mesmo que eu tenha casa própria. E o retalhador já quer governar o estado (dos outros), quer reino e magnífica corte própria, algo comum nestas terras brasílicas dominadas por quadrilhas de políticos cara de pau, porque os dignos, vergonha na cara, os que lutam a valer por um Brasil de união, ordem e progresso, estes raros políticos dão uma de éticos e não põem a boca no trombone.

Não, o Pará não é casa de engorda e enriquecimento de esquartejador da terra dos outros. Mas o pior é que eles se juntam até a certos políticos paraenses, que, em vez de dizer não decisivo e absoluto à divisão, ficam em cima do muro. É que os muristas, paraenses também não são flor que se cheire. Incrível que políticos paraenses admitam o roubo oficial das ricas terras do Pará. Pendurados no muro, os muristas paraenses só pensam na engorda de seus vastos currais e não em defesa e união.

Sim, quem quer esfacelar o Pará? Deputados de longe que lambem os beiços por se apoderar do Marajó, do Tapajós, de Carajás. Risíveis os argumentos separatistas: A imensidão do Pará impede seu progresso. Nada! Papo de político! É vasta a miséria dos estados pequenos e do Brasil mal governado. Dividir vem da omissão de políticos do Pará, eles em ânsias por suas lasquinhas. Separatista daqui e de fora quer é feudo, castelo, mais poder.

O mapa do Pará lembra um buldogue. Ele precisa de brio, amor-próprio, rosnar, se quiserem reduzi-lo em retalho. O Pará quer paz e união. Vamos calar os esquartejadores que boiam, do fracasso em seus estados, ao sonho de esfacelar o Pará. Vamos dizer não a mais essa mutreta de político espertalhão.

domingo, 13 de novembro de 2011

VITORINO


Da espécie "praça dos girassolis palmensis", Vitorino é uma espécie rara de felino do cerrado, encontrado somente em fétidos esgotos e bueiros de cidades pseudo planejadas, essa adorável miniatura de tigre só pode ser resgatada por bombeiros corajosos e treinados em salvamentos de filhotes de bichanos cinzentos, cuja árvore genealógica descende de uma vistosa família de "felinus viralatus". Assustados pela individualista vida da urbis ex nihilo, eles podem desenvolver pânico de ruas e avenidas movimentadas, refugiando-se assim nos bueiros e esgotos lindeiros dos leitos carroçáveis, por tanto, comumente são portadores de Sarna Notoédrica. Apesar da raridade desta espécie, quando adotados com amor, podem tornar-se o melhor amigo do homem e da mulher.

Patrícia Orfila (13/11/2011)


terça-feira, 8 de novembro de 2011

PATRÍCIA ORFILA


Torre de Pisa num oceano de lagartos,

Olhos desviantes das personas,

Renoir moldando sarças devoradoras.


Anjo em voos venenosos,

Verdade sem hora do cansaço,

Língua sangrando Libertação.


Orfila polidez da Inteligência,

Perfume dos tempos,

Orfila Pedra da Arquitetura.


Astúcia crítica de Chaplin,

Jangada de Flores entre rochedos,

Orfeu despertando os mortos.


Patrícia Lençol de ironias,

Menina dos perdidos na Rua,

Patrícia nosso Amazonas de Luas.


Ary Carlos Moura Cardoso.

Fonte: http://muraldosescritores.ning.com/profile/ARYCARLOSMOURACARDOSO





sábado, 5 de novembro de 2011

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Quando o Plano Diretor de Palmas será implementado?

Mesa de debate no CUICA



Palmas, 27 de maio de 2011.

Em 2007 foi sancionada a revisão do Plano Diretor, através da Lei Complementar n° 155, que dispõe sobre a política urbana do município de Palmas, formulada para atender ao pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e a garantia do bem-estar de seus habitantes, conforme estabelece a Constituição Federal de 1988, em seus arts. 182 e 183, e o Estatuto da Cidade, Lei Federal n.º10.257 de 2001, tudo isso após um longo debate fomentado pela prefeitura com a população de Palmas.

A revisão, dentre outros temas, incluiu o debate sobre a inserção de instrumentos previstos no Estatuto das Cidades, como o IPTU progressivo no tempo e a definição de Zona Especial de Interesse Social (as ZEIS). Estamos em 2011 e não vejo tais instrumentos serem aplicados, ou seja, o Plano Diretor foi discutido, revisado, aprovado, mas não foi implementado. Minha primeira pergunta é: por que não foi implementado?

Em maio desse ano a mídia tocantinense divulga um sobrevôo de vereadores que “descobriram” 44 loteamentos irregulares na zona rural. A respeito desse fato elaboro a minha segunda pergunta: por que somente em 2011 esses 44 loteamentos foram descobertos e como algo tão grandioso passou despercebido pelos nossos gestores?

Fico confusa quando vejo que tais dados foram divulgados através de um relatório produzido pela Secretaria de Finanças e lanço uma terceira questão: será que não estamos trocando as responsabilidades?

É óbvio que o lançamento de lotes na zona rural terá valores menores, atraindo muitos interessados, mas fomentar a tributação desses loteamentos só agravaria o problema dos vazios urbanos no centro da cidade, bem como aumentaria os custos com a infra-estrutura a ser levada até essa área. Porque ao invés de ‘regularizarmos aquilo que é a irregularidade’ não simplesmente agimos conforme manda a lei? Agir conforme a lei é identificar as irregularidades, proceder com as notificações e aplicar as devidas sanções.

Mas, o momento também se mostra bastante oportuno para cobrarmos com mais veemência a implementação do Plano Diretor e, sobretudo, do IPTU Progressivo, este sim é fundamental para conter a especulação imobiliária imoral que produz os tristes espaços vazios bem no centro da nossa cidade.

Então, vamos refletir: porque ampliar a área urbana de Palmas quando em 2007 o plano diretor aprovou a restrição dela? Isso não seria um retrocesso? Progredir, neste sentido, é agir com firmeza e fazer valer a lei em todas as suas esferas, tal atitude além de legítima é educativa.

É bom termos o conhecimento da resolução de n° 83 de 2009, recomendada pelo Ministério das Cidades para a revisão ou alteração de Planos Diretores (nela está a indicação de que os planos devem ser revistos pelo menos a cada dez anos).

Ainda tenho dúvidas: porque as discussões feitas até agora sempre giram em torno das ações curativas e nunca preventivas? Não podemos esquecer que moramos em uma cidade cujo status é de “cidade planejada.” Por isso concordo com o funcionário da prefeitura Cesar de Santis, quando ele diz que precisamos de um Instituto de Planejamento Territorial e que devemos fazer um macrozoneamento municipal, com um zoneamento ecológico e econômico, ou seja, organizar de forma mais coerente o uso e ocupação do solo urbano e rural. Sabemos que a capacidade atual da área urbana é de 4 milhões de habitantes e hoje somos 230 mil espalhados ao longo do plano urbanístico e com uma concentração grande no setor sul.

Manifesto a minha opinião não apenas como arquiteta e urbanista, mas também na condição de moradora de Palmas. Vim para o Tocantins em novembro de 2005 e tenho vivenciado a cidade de diferentes formas: como pedestre, ciclista e motorista, posso dizer com propriedade que a condição de motorista é a menos agressiva – o que não comunico com alegria. Assim como todos vocês, também sinto a falta de vida na cidade, aquela praça imensa e vazia, lotes sendo especulados por todo canto, por onde passamos temos a imagem do deserto de jardins, sem deleite, sem trocas, sem paradas, sem surpresas. É só um grande vazio desalentador.

Cito um breve trecho escrito pela jornalista britânica Madeleine Bunting, em que retrata um pouco sobre a natureza das cidades: “o espírito da cidade é formado pelo acúmulo de minúsculas interações cotidianas com o motorista do ônibus, os outros passageiros, o jornaleiro, o garçom do café; das poucas palavras, dos cumprimentos, dos pequenos gestos que aplainam as arestas ásperas da vida urbana.”

A riqueza a qual se refere a jornalista tem a ver com um conceito chave do urbanismo que é o de “densidade urbana”, exatamente o que não existe no centro de Palmas e para que ela seja estimulada é necessário não deixar que a cidade se espalhar ainda mais. Finalizo a minha manifestação com uma última pergunta: como adensar o centro de Palmas ampliando ainda mais o seu perímetro urbano?

Patrícia Orfila.

Quem sou eu?

Minha foto
Palmas, Tocantins, Brazil
Arquiteta e Urbanista (UFPA), Mestre em Engenharia Urbana (UFSCar), Doutora em História Social (UFRJ) e Professora do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Tocantins (UFT).